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Faz tempo que não rola aqui no blog um “Papo de Salão”. Mas com as campanhas #euligo180 e #EuNãoMereçoSerEstuprada somadas ao susto que levamos com o resultado da pesquisa do IPEA – e não importa se o resultado é 26% ou 65% – achei que valeria a pena abrir um diálogo sobre o assunto.

Vou começar falando de algo diferente, sobre uma situação que rolou no fim de semana e que parece não ter nada a ver com isso. Mas tem…

Montem esse cenário em sua cabeça:

Uma pessoa vai a uma festa. A balada é em um clube que tem estacionamento. Mas como ela encontrou uma vaga na rua, no quarteirão ao lado, ela estacionou lá mesmo. Afinal, não valia o risco de perder uma vaga tão pertinho da balada.

Então, ela pega seu dinheiro e o RG e tranca seu carro com a bolsa dentro. Na bolsa estão: chave de casa, outros documentos, celular, contas, óculos… tudo o que ela não queria ficar carregando na festa.

Então, enquanto a balada está rolando, alguém quebra o vidro do carro estacionado lá fora e rouba sua bolsa embora!

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Pronto. Imaginou a cena?

Agora me diz: o que vc está pensando?

Muitos devem estar pensando exatamente o mesmo que passou pela cabeça de várias pessoas nessa festa – inclusive na minha, eu confesso:

“Mas porque ela não parou no estacionamento?”

“Mas porque ela deixou a bolsa no carro?”

“Também, né? Deu bobeira…”

Pois é. A culpa, então, é toda dela, né?

Eu estava nessa festa. Eu fui uma das primeiras pessoas avisadas pelo segurança do clube que algum carro havia sido roubado. E fui eu quem levou a má-notícia para minha amiga.

E logo nos 2 primeiros segundos depois de ter pensado “Deu bobeira, né?”, eu me lembrei da pesquisa do IPEA e da mania feia que temos de culpar a vítima!

Não! Minha amiga não deu bobeira. Ela não estava pedindo para ser assaltada. Ela não tem culpa. O culpado é quem quebrou o vidro do carro e levou sua bolsa! Esse é o culpado. Ela é a vítima!

Ah, ela poderia ter levado a bolsa? Poderia. Ela poderia ter estacionado o carro no clube? Poderia. Mas estacionar o carro fora do estacionamento e deixar a bolsa lá não é errado! O errado é roubar!

Voltando ao primeiro assunto… Quando li a pesquisa, ela fez todo sentido. Em especial por causa de uma situação que havia rolado na academia na mesma semana. Vou contar:

Na sala de musculação, um aparelho estava sujo. Então, chamei a “tia da limpeza” para me ajudar. Ela chegou perto com seu paninho, olhou aquela mancha e disse: “É esperma!

Oi?

Nessa manhã levei 3 sustos com 3 frases da “tia da limpeza”:

Primeira: “É esperma!”

Segunda: “Ih, acontece direto isso aqui…”

Terceira: “Também, né? Com esses shortinhos que as meninas usam…”

Pera aí? Então, a culpa é dos “shortinhos” das meninas? E o cara que treina ao meu lado que não consegue se segurar e acaba se “aliviando” num aparelho da sala de musculação, no meio da academia? Ele é bacana? É um cara legal?

Eu não tenho filhas, mas se tivesse, não gostaria que ela se relacionasse com um homem que não tem auto-controle como esse rapaz.

Não! A culpa não é dos shortinhos! A culpa não é da saia curta! A culpa não é da menina que exagerou um pouco no álcool!

Nós, mulheres, somos diariamente assediadas e atacadas. Nem sempre esse ataque é físico! Muitas vezes é moral! É um jeito agressivo de olhar no meio da rua. É um adjetivo totalmente inadequado num bar.

É quando não damos bola para um cara na balada e ele nos xinga! Como se fôssemos obrigadas a aceitar qualquer tipo de investida ou assédio!

Se a gente parar e pensar, 65% é um número muito mais próximo da nossa realidade do que os revisados 26%.

E o susto causado por essa pesquisa nos fez parar e refletir sobre o assunto!

Quantas mulheres não foram atacadas – verbalmente, moralmente ou fisicamente – e, depois dessa polêmica, resolveram se abrir? Afinal, antes, elas eram “culpadas”.

Basta ler um pouco os depoimentos da Página no Facebook EU NÃO MEREÇO SER ESTUPRADA para ver o depoimento de várias mulheres que foram abusadas e estão falando sobre isso pela primeira vez!

Mulheres – e homens – que passam por experiências assim merecem nosso apoio e não nosso olhar de reprovação! A culpa é de quem praticou o ato criminoso e não da vítima.

Torço para que essa pesquisa nos ajude a mudar essa maneira de pensar!

Somos jovens e queremos mudar o mundo. Mas essa mudança tem que começar dentro de nossa própria cabeça!

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Um beijo, Ju Diniz

 

Fotos: Pinterest

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